Domingo, Setembro 05, 2010

Entrevista com o peixe

Naquele ruindento barulho branco, dentro do azul refratário, ainda ouvi um toque das frequências agudas cortantes de algo semelhante ao ferro, antes de vislumbrar aquele objeto que ia pouco a pouco se tornando quieto,no distorcido som inaudível, se dando ao movimento das águas que ali ele foi habitar – é o que entendia. Ainda não saberia reconhecer o que seria pois a uma certa distância o que é não é o que se vê – mesmo por que muito do que se vê realmente não é o que é.

Via aqueles cardumes passeando de lado a lado, pensando no porquê deles andarem em grupo. Não sou muito chegado a grupos – tendem a limitar minha linguagem e quero mais é a língua solta e livre! Estava à espera de um outro sonhador, este sendo um peixe, cuja vida estava ali para refletir. Deveria haver algum rebelde libertador, em libertação, para mostrar alguma possibilidade de ação em novidade – que maldade, estava eu ainda querendo que tudo ao meu entorno tivesse essa espécie pacífica de vingança do mundo, mostrando ao mundo como ele é, o que ele produz e coisas do gênero, como qualquer indeciso...

Meu interesse, neste caso, se dava especialmente por se tratar de seres que ouviam certo o que ouço errado, isto é, suponho que eles tinham sua maneira especial de ouvir, por tanto tempo vivendo dentro das águas. Eu, que me revelo em som, haveria de ter mais uma perspectiva deste ambiente sonoro tão especial, onde haveria de transpor para a escala humana o que é este grande arsenal de sons ocos, vazios, inquietos e vibrantes, batendo direto no corpo e tremendo no coração. Não sei se era saudade do tempo de feto, mas... pode ser! Isso, claro, está por baixo da entrevista de pesquisador que tento me formar.

Enquanto minha visão restrita pesquisava algum possível alvo, vem por trás um peixe azul engraçado, todo desengonçado e gordinho, que reclamou de pronto: “Sai do meio!”. Achei que era ele. Um “cara” assim deveria ser um transgressor – além de mal-educado, claro. Não acredito que transgressores sejam mal-educados, mas entre eles, um ou outro sempre se aliam como forma de “se superar”.

- Ei, amigo!
- Amigo o quê, mermão?
- Você tem um tempinho pra gente conversar?
- O que você acha que eu tenho pra conversar contigo?, ô!!!
- É que estou vendo que você tem um jeito descolado e eu queria saber um pouquinho sobre o que pensa da vida.
- Pensar da vida... Pra quê pensar em vida? Vida é viver! – já achei interessante a primeira resposta. Demasiado inspirado (ou eu estava numa de panaca). Daria uma boa entrevista.
- Bom, pra onde você está indo?
- Você não está vendo aquele alimento ali na frente?
- Rapaz, pra ser sincero, eu não enxergo direito aqui embaixo.
- Embaixo do quê?
- Aqui dentro?
- Dentro do quê?
- Hum, tá certo. Eu não sou daqui, sou de outro ambiente e queria muito saber pra onde você vai.
- Ué, já não lhe disse daquele alimento ali na frente – apontando com um bico enorme em direção ao tal objeto que vascilava oscilantemente como algo que quer hipnotizar.
- É, eu vi quando ele caiu. Você sabe o que é aquilo?
- É alimento.
- Você tem certeza?
- Claro! É alimento dos deuses. Todos que vão lá conseguem sua redenção. Vão para outro plano.
- Ah, quer dizer que você acredita em outro plano?
- Bom, acreditar mesmo, não sei. Sei que é histórico que quem vai consegue.
- Consegue?...
- Consegue sumir, rapidamente. Eu acho que isto que você fala de ser diferente é tão igual que tem horas que dá vontade de sumir. Daí, a gente some, vai pra outros planos. Ninguém diz nada, mas todos nós vamos. É assim que acontece por gerações e, mais cedo ou mais tarde, este é o início de outra jornada. Você me achou mal-educado por que não lhe pedi desculpas, né? Pois é, quando se chega em minha idade e peso, é por que está chegando a hora.
- A hora de ir pra este outro plano?
- Claro que sim!
- Mas, senhor, digo, rapaz, você não consegue ver direito o que é aquilo ali?
- Claro que vejo. E não me chame de senhor. Tenho idade e peso, mas aqui não tem esse negócio de senhor, não!
- Você diz que é alimento. Não vê mais nada além disso?
- E tem mais alguma coisa a se ver por aqui senão o alimento?
- Rapaz, eu pensava que você era transgressor, mas parece que você é mais tradicional e cego do que eu imaginava.
- Bom, o que você pensa, ou não, nada disso me interessa. Eu quero o alimento.
- Olha, você vê que lá no seu alimento tem umas coisinhas meio brilhantes?
- Claro que vejo. É exatamente o sinal de que aquele é o alimento para a ida ao plano dos deuses.
- Rapaz, aquilo é um anzol. Aquilo vai lhe perfurar a boca e não vai nem conseguir sentir o gosto do alimento. E você vai ser pescado! Isso é o fim!
- Ah, já entendi! Você está querendo ficar com o alimento, né? Pois eu não deixo não – já ia saindo e o puxei pelas barbatanas.
- Aquilo ali é uma ferramenta dos homens que vai  levá-lo para uma grande churrasqueira e não tem história de deuses, não!
- Macho, você está começando a me confundir. Não gosto disso, não!
- É sério, aquilo tem uma garra de ferro que vai pegar na sua garganta e você vai ser levado pro ar e vai se bater até morrer. É isso que você quer?
- Sabe de uma coisa? Você é muito cheio das conversas. Vou cumprir meu caminho e ganhar o plano dos deuses. Enfim, a vida aqui é pra isso mesmo. Seja feliz com sua pesquisa e veja se arranja um outro trouxa pra convencer.

Assim, lá se foi nosso grande “herói”, lutou um pouco pra agarrar “o alimento” e rapidamente foi puxado para o “plano dos deuses”. Minha entrevista fica assim registrada: entre a gordura da vida, o azul estrelado de si e a cabeça, não há exatamente um ser pensante. Peixes continuarão comendo minhocas, chamando-as de alimento. O fim do fim do pensamento e de uma sensibilidade crítica é uma churrasqueira familiar, repleta de pentelhinhos e empregados remontando os costumes burgueses. O peixe ainda vai ser servido com ketchup! O alimento, ou melhor, a minhoca, sempre será servida com um gancho que agarrará na garganta, não adianta o canto que cante. Minhocas, artistas da terra, sempre estarão deslocados e servindo de gancho para outros objetivos.

Até o próximo peixe!

Sábado, Agosto 14, 2010

Dos absolutos, dos censores

Não creiam: o Grande Irmão, anunciado por Orwell, está presente – não é somente literatura. Não há ficcção na vontade de saber, de dizer, de construir conforme interesses nada excusos na grande estrada amoral, cuja ética e moral atendem sempre aos interesses próprios, em todas as dimensões.
A “verdade absoluta” foi expulsa do paraíso há tempos. E ela nos habita em tentativas de convicções formadas pela tradição e ideais de raiz. Somos seres soltos em espaços aleatórios e nestes temos que fazer algo a respeito do que é corrente. A corrência das coisas, neste mundo que a mim parece ter virado de cabeça para baixo, evita tocar nestas minúcias detalhistas e puristas em que o que é será sempre uma aproximação, articulada por palavras censuradas, não condizentes com a totalidade de sua origem, mas com um propósito que tentam legitimar como válido e possível.

Todos temos passado e, feliz ou infelizmente, temos concretizado, de “lá”, grande parte do que sustenta nossas práticas ou vamos nos ressentindo vorazmente pelas quebras íntimas que “somos obrigados a percorrer”. Não fosse o passado e o que pudemos aprender pela experiência, pelo contato próximo às situações que nos colocaram frente-a-frente com o que desejamos fazer, mesmo que não querendo (simples conveniência), tudo se conforma num ser presente que tem que se reformar para agir na agilidade das apreensões cotidianas, em que fazer é competir, ultrapassar limites próprios e de outros, negar princípios; e são poucos os que conseguem permanecer fiéis a seus objetivos primeiros e se sentirem dignos ao olhar no espelho dos olhos alheios que o acompanham, ou ao espelho em que sua intimidade não o nega até a hora do travesseiro confidente.

Assim, diante da pletória de informação e do disse-me-disse, os seres são vasculhados em suas densidades, testados até quase a alma – não há como, atingindo a alma, deixar-se tão vulnerável e conveniente às situações. No entanto, as coisas todas, as relações que vão em rede multiplicadas, observadas minuciosamente, fazem com que as pessoas vão superficializando a vida no que há de mais vil do que um ser é capaz de sua vida. Mas está dentro da cultura, a sociedade do espetáculo, sempre em franca evolução, onde gerar interesse é criar negativas, posicionamentos flagrantemente reiterados de dúbio posicionamento, e assim o mar da vida tornar-se mais revolto. Parece mais excitante!

Muitos de nós, “seres comuns” – sem o poder e conhecimento para intervir em diversos assuntos, pela complexidade ou pela falta de acesso – anunciamos ao mundo nossas visões que são tão torpes quanto mais torpes são os objetos que nós tentamos tocar. Esse lado torpe dos seres comuns nada são do que o grande torpe de todo o discurso do Grande Irmão, tão disperso e diverso.

Neste tempo de eleições e tamanhas dificuldades na gestão de uma cultura tão bipolar, saímos pelo mundo repleto de opiniões, muitas delas advindas deste procedimento de propagação das idéias não embasadas, nada consistentes, e que chamam posicionamentos do passado ou forças do presente contínuo para alterar a cabeça daqueles “nós” que não sabemos mais em quê ou quem acreditar.

Somente hoje, pela manhã, recebi várias “mensagens de grupo” falando  da “gangrena” postada no centro do meio televisivo-jornalístico mais visto do Brasil – um grande estimulador na conformação de opinião e definitivamente formador de opinião – este confirmando a incompetência de tal jornalismo em lidar com posicionamentos um pouco mais complexos, perdendo a sobriedade e derrocando em seu poderio de estar frente a um dos mecanismos de informação popular de maior responsabilidade, já que de maior audiência, flamejando um infantilismo lamentável na conformação da própria profissão. Porém, já é visto o quanto as instituições estão fragilizadas diante da força da velocidade em que a informação transpassa continentes deixando suas marcas.  E, elas não sabem lidar com isso. Imagina?

Não conto a diversidade de emails denegrindo a imagem da presidenciável do PT, em todos os aspectos, e alguns, em especial, de personalidades públicas que retém credibilidade pública, anunciando o mesmo discurso que Regina Duarte proferiu ao dizer que “tem medo do Lula”. Agora, é Marília Gabriela que assume o posto do “tenho medo de”. Pergunto-me veementemente se estas pessoas não se lembram dos acontecimentos nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor. Óbvio, nestes governos não houve tempo para ter medo de nada. Mas, sendo pessoas a quem sempre dirigi respeito, pergunto-me o mais sinceramente: do que é feito esse tal reino de informações? Quais as conveniências que tais personas assumem publicamente em formato tão “Chapeuzinho Vermelho”?

Concretizando a falência da candidatura do presidenciável José Serra, outros tantos vão colocando o manancial de coisas sob as quais esta alternativa está sucumbindo. Assim, tentam empurrar as sobras dos desacreditados nesta candidatura para a candidata do PV, Marina, que chegou a ter alguma simpatia, inclusive, mas por seus posicionametos religiosos e nada contemporâneos – diante de realidades necessárias a este mundo presente – pintou o verde original em cores de matizes nada estéticas e sem foco, sem amplitude além da visão soberana de sua religiosidade.

O Grande Irmão não tem pena, não é condescente, não faz parcerias, não avalia situações, não tem a menor empatia a respeito de questões sócio-econômicos-culturais e educacionais; na verdade, o Grande Irmão só quer imperar. E este é nosso grande desejo: proferir opiniões, divulgar desconstruções, descentralizar atenções e se invibializar projetos de vida.

Neste momento em que constato coisas para minha reflexão, coloco ao mundo, pequeno ou grande, que venha a ler o que digo, propondo posicionamentos mais esclarecidos, menos espetaculares, pois se trata de um grande território (nossas vidas) e algo me vem com uma força destemida e necessária: Acabemos com este Carnaval!

Sábado, Julho 10, 2010

A internet, agregação, pessoas e o impossível

Há alguns anos comecei a ler Poderemos viver juntos? Iguais e Diferente, em cuja apresentação do livro, Alain Touraine traça um largo caminho de conformação da civilização, em atividades bélicas, econômicas, sociais, etc – todas podem ser somente uma, enfim. O que me chamou muita atenção é que no livro, escrito em 1997, o autor “previu” uma nova orientação no agregamento de pequenas comunidades formadas a partir de interesses específicos, em confronto às normas sociais que estavam ocas em suas práticas. Esta idéia entra em confronto direto ao que está estabelecido fortemente no Brasil, em que, por conseqüência de uma ação direta, aqui exemplificado na formação educacional, as pessoas se incapacitaram de unir-se por causas e interesses específicas de grupos. Confesso que, por algum motivo alheio, mesmo eu tenho dificuldades de pertencer a grupos, sinto-me claustrofóbico. No entanto, além de minha pessoa, não é raro ver que as pessoas vêm falando dos mesmos fatos que atingem o centro nevrálgico de suas existências e são incapazes de fazer algo senão falar.

Eis que em 2010 – talvez, em alguns segmentos, até antes – vejo acontecendo de forma flagrante, agora, um grande movimento de junção de interesses por uma causa: direitos autorais. Claro que se unem os do “interesse específico”, onde se juntam autores, executores (músicos e intérpretes) e amantes das artes (música, literatura, teatro, etc). Tal fato está acontecendo no Facebook, mais uma das redes sociais que se vem mostrando um agrupamento de pessoas “mais comprometidas” com a realidade e que, no Brasil, agrega pessoas de ação, formadores de opinião e articuladores de pensamento,sentimento e ação. O Facebook se difere um tanto do Orkut, que é mais popular e cujos interesses são direcionados a encontros breves e alguns sorrisos sociais, na maioria dos casos. Nada de maior comprometimento.

Isto me deixou pensando sobre qual é o ponto em que as pessoas podem realmente exercitar sua capacidade de se agregar em torno de algo necessário da ação e do conhecimento público. A face que se mostra é o público ativo (cansado de apenas cordialidades) e os profissionais ativos (atividades diversas em compreensão do exercício de certos poderes que em outras épocas provocariam dispersão).

Não, exatamente, por que seja uma formação de grupos a partir de interesses que tocam pessoas mais intelectualizadas, mas a proximidade em que artistas de várias áreas e pessoas que trabalham em diversos segmentos, no rol da economia, se fazem ver com uma empatia um tanto quanto diferenciada. Esta diferenciação é a expressão em mensagens de apoio explícito a causas em que as instituições continham o poder de fazer e de dispersar quaisquer movimentos sociais para que a realidade viesse a possibilitar sequer o questionamento, muito menos uma ação específica e ativa.

Recentemente, como blogueiro, denunciei um fato contra uma grande empresa, à qual teria agido de forma incorreta em relação a um autor. Meu interesse específico criou-se a partir de uma nota de insatisfação do autor ao sentir-se bastante incomodado com o fato. Surpreendentemente, recebi uma mensagem direta, da tal empresa, para a retificação do meu texto, devido a informações imprecisas. Em algum aspecto, vi que ser blogueiro e ter penetração no mundo das comunicações é uma força diferenciada, à qual me surpreendeu em cheio. Nunca pensaria que viesse a ser questionado pelo diretor de uma indústria com forte poder econômico e político. A minha ação em minha escrita, como blogueiro e artista, foi tentar condensar informações e observar o contínuo da formação de um fato. Mas fui pego com uma ação repressora, à qual me deu um certo status e a certeza de que é possível que os blogueiros independentes possam fazer surtir resultados, também no agregamento de pessoas em torno de um interesse específico. Como blogueiro, fiz a retificação sem retirar, exatamente, a informação que estava sendo questionada. É o meu direito de livre expressão, direito sagrado, que utilizo como artista também das letras, para dar ao público a exata dimensão do “fato em processo”.

Poucas semanas depois, agora em julho de 2010, vejo uma inusitada ação daqueles com formação “intelectual mais privilegiada” – no que não exclui pessoas ou suas formações – em torno do assunto “Direitos Autorais”: uma larga discussão sobre leis que regulamentam as instâncias de propriedade intelectual, a veiculação destes produtos “de entretenimento”, em um parágrafo de “uma minuta” que libera a outros a utilização extensa da criação e o direito dos autores de tal obra.

Bom, não é o assunto que venho tratar, é da forma em que se aglutinam pessoas em torno de um interesse específico – pessoas de lugares e status tão diferentes que me deixa realmente surpreso que este movimento esteja acontecendo. A agilidade das informações traz ao público, que também as gera, através da internet, uma ação rápida, resultado do poder pessoal de gerar interesses em participação do que é produzido, ou melhor, dos sentimentos em torno de uma ação que mexe com os interesses de um público sensibilizado por uma causa. Em pouco mais de um dia, vejo o rápido “congestionamento” de atitudes de expressão enfática em torno de um assunto.

No entanto, esta mobilização das pessoas, dentro da rede social Facebook, também vem gerando uma ação repressora, na forma daqueles que tentam mobilizar sensivelmente outras pessoas, nos diversos níveis de agrupamento. Várias pessoas engajadas na causa e com poder específico de apontar falhas neste assunto – determinado a respeito dos direitos da autoria – vêm recebendo mensagens da rede citada de forma um tanto “grosseira”, avisando que suas ações estão sendo reconhecidas como spam (repetidas informações para diversas pessoas) e que, em torno da repetida ação, a pessoa poderá ser excluída de tal rede social.

Isso tudo me lembra muito os conhecimentos e ações da ditadura militar, quando era impossível que mais de três pessoas, universitários, estivessem reunidos em uma conversa. Tal era a coerção que, em pouco tempo, formou-se, mesmo entre aqueles que não estavam “conspirando”, o grande medo de serem presos, torturados e toda a espécie de resultado daqueles que se reuniam. Esta avalanche de ações repressivas gerou culturalmente um medo de falar sobre determinados assuntos de forma mais aberta. Tudo passou a ser medido e pesado, as falas se reorientaram para um social vazio e livre de qualquer especulação a respeito da realidade em que vivem.

Estar presenciando, e participando, destes “desvios de conduta” em plenas redes sociais, me mostra o “grande temeroso” da ditadura econômica, na qual ter uma idéia própria já é um avilte à susceptibilidade dos que conduzem as redes sociais.

As redes sociais negam seu próprio princípio e afirmam outro significado: a sociabilidade pode ser exercida desde que esteja dentro do limitadíssimo da atenção dos seus administradores. Coisas de interesse relevante e que sejam levadas ao conhecimento público são, infelizmente, barradas no ponto do estrangulamento; são literalmente estranguladas as capacidades de comunicação em ampla forma, ou seja, não se pode conhecer tanta gente para informar sobre um assunto que seja tão importante para estas pessoas, os próximos e os mais distanciados, estes com interesses específicos a respeito do assunto em pauta, em qualquer momento.

As redes sociais vêm apresentar uma enorme revitalização das capacidades individuais de serem formadores de opinião, com poder de ataque tão grande quanto pequeno é o limite dado pelas redes sociais aos indivíduos em suas expressões – talvez independentes do assunto tratado.

Não é novo o conceito do Grande Irmão, aquele “ser” que está atento e controlando as ações de todos os indivíduos. Falam em “Big Brother”, mas o exemplo aí é de pessoas que têm interesse de aparecer e formam um perfil exato para gerar audiência em sua participação no programa, o qual está em sua décima edição e, por tão longo tempo, vê-se que o formato é economicamente muito lucrativo, enquanto agrega ainda o merchandising dos “patrocinadores” do programa, enquanto este já vem pago em sua fonte : lucros imensos para todos, vindos, inclusive, das infames ligações da “pobre” audiência que cai nesta novela onde os participantes mostram uma espécie de espelho daqueles que assistem. Seria melhor que as pessoas olhassem seu próprio reflexo e se entendessem mais, não?

Nas redes sociais, a presença do “Big Brother” toma um contorno taxativo de coerção, a partir de um regulamento em que, no caso do facebook, as pessoas podem ter até cinco mil amigos – coisas de artistas e seus fãs – mas um indivíduo não pode ter tal alcance, nem se comunicar a respeito de um mesmo assunto em vários comunicados repetidos. O Spam é utilizado como arma sub-reptícia que detém o controle sobre as ações individuais e, por conseqüência, as possíveis formas de ação social e agregamento.

Parece-me que qualquer tentativa de melhorar a qualidade das relações das pessoas em torno de algo de interesse comum continua sendo o alvo inadiável para a manutenção de uma sociedade de consumo que não possui opinião, não tem grandes poderes de comunicação nos grupos que se formam, é de fácil manipulação e que deve ser alienada, por princípio, de tudo aquilo que explique mais claramente o que é de interesse público e avesso aos interesses econômicos e políticos (não dá pra desatrelar economia e política, mantendo o social, cultural e individual como “coisas menores). Penso eu: só não vê quem não quer !

Domingo, Junho 27, 2010

Das artes - Sobrecultura e outros desvios de...

Observação: Por uma NOTA DE ESCLARECIMENTO em meu blog no Portal Luis Nassif, a empresa NATURA questionou as informações relacionadas ao questionamento de sua postura no caso, pedindo-me uma retificação nas informações. Como forma de retificação utilizei SUBLINHAR as informações, de forma a que os leitores estejam a par de uma "conformação do fato" que ainda está em processo. Aqui, ao invés de sublinhar, não contando com este recurso de edição de texto, colocarei em itálico, entre chaves e em vermelho o que é pertinente à questão, forçado a uma retificação. Logo após, colocarei a NOTA DE ESCLARECIMENTO postada pelo jornalista Luis Nassif em forma de comentário em meu post. Em seguida, coloco também o texto PONTO FINAL, de autoria do Zé Renato - já cansado destas celeumas. Agradeço a atenção a estas ocorrências e sugiro que tirem suas conclusões.



Vivemos prestes postos aos mundos das idéias. Idéias são frágeis partículas do tempo em que nossos fragmentos vão se constituindo e diluindo, feito a imagem dos rios, das águas como tempo. Idéias são perdidas em registros não feitos, são defeitos de atenção quando o alguém que teve a idéia não respeitou o momento do fato da idéia, lugar precioso, sagrado, onde moram todos os sentidos legítimos de uma causa. No entanto, apesar da beleza da criação, o posicionamento ético a respeito de todos a partir de uma idéia é uma coisa que pode virar um lixão enorme, de cujas proporções nosso estômago não agüenta sequer saber – e creio que quem acredita em ética já se tenha corroído.

A Natura, empresa reconhecida pela qualidade de seus produtos que têm em sua composição elementos naturais, levou adiante a idéia de promover a imagem e ideologia da empresa junto à produção cultural brasileira, através do Natura Musical. Tal é que no DVD de Marisa Monte Universo ao meu redor, em que conta os trâmites das produções de shows, as dificuldades que teve que passar, a artista cita que, por problemas com as gravadoras internacionais e problemas de mercado, durante a turnê, teve que buscar na Natura, confluindo interesses sobre o equilíbrio do trabalho que tinha, as necessidades emergenciais e as propostas do Natura Musical, como forma de aumentar a visibilidade de ambos os empreendimentos. A naturalidade, formação e exposição cênica favoreceram à artista: a aliar sua turnê a algo da qualidade, o produto da Natura. Este é praticamente o texto todo, o discurso praticado, síntese do DVD.

A prática reconhecida do programa Natura Musical se exerce no formato edital, recebendo propostas de produção musical diante de temáticas que se alinhem às práticas ambientais. Os projetos podem ser inscritos mediante prévia aprovação na Lei Rouanet - o que é um contrasenso, ao que passa pelo crivo da Rouanet e depois pelas instituições patrocinadoras.

{Com o cadastramento dos projetos em diversos editais, empresas e outros, Zé Renato, através da produtora responsável apresentou, também, no Natura Musical o projeto “Água pra quê? Cada gota é um tesouro!”, idéia do próprio que já a concebera há 5 anos. E a água tornou-se um tesouro tal e qual aquele pote no fim do arco-íris.

A
produtora responsável pelas atividades do cantor e compositor Zé Renato, apresentou o projeto seguindo os fabulosos cds Samba pras Crianças (Prêmio Tim de Melhor Disco Infantil, 2004) e Forró pras Crianças (Prêmio Tim de Melhor Disco Infantil, 2007 e nomeado ao Grammy Latino, na categoria álbum infantil), ambos projetos de autoria de Zé Renato, lançados e distribuídos pela gravadora Biscoito Fino em parceria com a produtora. Os dois CDs contam com a participação de vários artistas e obteve ótima repercussão, quando poucos são os produtos “de qualidade” que atingem a criançada.

Unindo o trinômio criança, água e música, foi devidamente apresentado e cadastrado o projeto, repito, “
Água pra quê? Cada gota é um tesouro!”, de autoria de Zé Renato.

Nem tão mais tarde, um representante da Natura entra em contato com o
Zé Renato no intuito de obter maiores detalhes a respeito do projeto, o que trouxe ao autor a tão alentada possibilidade de realização de um projeto de qualidade. “Incrível e coincidentemente”, a empresa Natura lança o projeto “Descobrindo o mundo através da água”, com o mesmo trinômio. Em seguida, a Natura contrata o grupo Palavra Cantada para a composição de 5 músicas, pelo tema. A linha Natura Naturé está então no lançamento de “seu” concurso “Descobrindo o mundo através da água”, na reta final do concurso.

Talvez uma frase só diga melhor do que “
Água pra quê? Cada gota é um tesouro!”. Será?

Situações como esta surgem de maneira infame!

Em contato com a produtora nos foi confirmado a “coincidência” na temática, no trinômio, nas cores utilizadas na exposição oficial do Concurso e diversos outros detalhes que estavam disponíveis no projeto online para a visualização de possíveis patrocinadores, no qual constam 4 músicas demo, seguindo o mesmo formato dos dois CDs infantis anteriores: um cantor (
Zé Renato) e crianças, em formato demo. No projeto original consta a produção do cd, DVDs e 11 apresentações, com participação de grupos de corais infantis.

Em contato com o grupo
Palavra Cantada, a produtora afirma que eles não teriam nada com o formato dado, mas no lugar do Zé Renato, não haveria esta aceitação na quebra de ética e desrespeito a autoria, no que se vê configurado – de forma tão aviltante.

Infelizmente, a produção cultural está na mão de editais que já dão a experiência devida de uma prática duvidosa, em que são manipuladas informações e opção objetiva por determinados tipos ou grupos, de forma a chegar a uma seletividade “
não-natural”.



É lamentável observar que além das práticas indevidas em algo que se diz aberto, na verdade ser tão manipulado assim, do formato dos projetos, passando pela “ambientação” do patrocinador que se vale das renúncias fiscais para a visibilidade de suas empresas, e o crivo infalível que é justamente: “quem dará maior visibilidade ao meu produto?”.}

O dinheiro do povo está financiando as premissas de renúncias fiscais de imposto (devidos ao Governo) a empresas que sob o título de responsabilidade social negociam interesses econômicos de grande valor, como a visibilidade – forma imprescindível de fixação da imagem e dos produtos na cabeça dos consumidores, que pensam estar comprando e contribuindo com aqueles que são “responsáveis socialmente”. A visibilidade de algo condiz com a longevidade da empresa e produtos, bem como retorno imediato de imensas proporções.

Como qualquer outra atividade, a produção cultural encontra-se em uma encruzilhada nesta manipulação desdenhosa daqueles que têm boas idéias em detrimento daqueles que podem das mais visibilidade a seus produtos. Que a produção cultural esteja nas mãos do governo já não é um fato tão bem aceito, devido às imensas distorções que surgem. E o assunto piora ao vermos que as empresas se utilizam de um “recurso de prerrogativa democrática” para fazer valer o seu produto. Fica claro que o dinheiro re-posto nas carteiras dos empresários, por obterem dedução de impostos, acaba por ser multiplicado infinitamente, à medida que impõe um produto, uma marca e uma idéia em vasta divulgação.

Não existe renúncia fiscal ! O que há são maneiras articuladas de fomentar a economia com nomes feitos: responsabilidade social, visibilidade e muito dinheiro de volta. Ou seja, paga-se às empresas para usarem uma camisa com várias frases de efeito, de forma que ela se valha mais dos recursos que lhe está disponível: editais, concursos e coisas do tipo.

Os artistas, além de serem confrontados com a apropriação indébita de suas autorias,ainda servem de marionetes para um sistema sempre e sempre corrosivo.

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Abaixo reproduzimos a carta de Zé Renato.

Natura: Edital Pra Quê?
sábado 26 junho 2010

Há 5 anos eu tive uma idéia. Após ler o noticiário sobre mais uma catástrofe ambiental, mostrando a rápida diminuição de um lago africano em decorrência do aquecimento global, decidi incluir a questão em minha agenda e imediatamente comecei a esboçar um novo projeto que imaginei dedicar às crianças dando prosseguimento aos outros dois realizados anteriormente por mim, a saber: “Samba Pras Crianças” e “Forró Pras Crianças”. O diferencial seriam as canções, que dessa vez eu comporia com alguns parceiros. Convoquei os amigos e assim aos poucos as músicas foram ganhando belas letras de Joyce, Zélia Ducan, Juca Filho, Ivan Santos, e outros ainda em andamento. O projeto denominado “Água Pras Crianças”, ainda prevê shows e gravação de dvd. Como tantos outros artistas o inscrevi em leis e editais diversos torcendo obviamente por bons resultados. No final do ano passado tivemos um alento- alguém do dept de marketing da NATURA, uma das empresas em cujo edital havíamos inscrito o projeto, fez contato telefônico e via e-mail com nossa produtora pedindo detalhes deixando-nos animados com a perspectiva de finalmente realizá-lo depois de tanto tempo de ralação. Doce ilusão. O resultado saiu e nós não fomos contemplados. Sentimos o golpe mas tudo bem, afinal de contas não sou o único a fazer parte do numeroso grupo de descamisados-sem- patrocínio-de-pires-na-mão que vagam por aí. O que me causou espanto foi ver o assunto escolhido para a nova campanha da empresa divulgado amplamente no site e em um progama de tv ( Caldeirão do Hulk): música, água e crianças. As mesmíssimas questões do meu projeto. Como eu me senti? No meu lugar, como se sentiriam?Ao ver a divulgação das inscrições para o novo edital da NATURA penso nos que poderão passar por esse mesmo tipo de coincidências. Sugiro que fiquem bem atentos. É certo que as idéias estão no ar e que semelhanças existem. E má fé também.


“Água Pras Crianças” é um projeto do bem, no momento certo, tenho certeza, as águas vão rolar.


Zé Renato

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Natura fala:
Abaixo a nota de esclarecimento, colocada via Luis Nassif.

A Natura enviou a seguinte nota, em resposta ao comentário do Érico
NOTA DE ESCLARECIMENTO

A Natura esclarece que lançou, em 2005, o Programa Natura Musical, como parte de seu compromisso social, visando estimular e difundir a música brasileira. Para que esta atuação ocorresse de forma ética, transparente e responsável, oficializou o processo por meio de editais públicos, que democratizam o acesso aos recursos e revelam o cuidado para que o processo de seleção ocorra de forma transparente e idônea.

Certa da lisura desse processo, a Natura esclarece não haver nenhuma conexão entre o projeto "Água Prá Quê? Cada Gota é um Tesouro", do músico Zé Renato, inscrito no Programa Natura Musical de 2009, e o concurso cultural “Descobrindo o mundo através da água”, uma ação de marketing da linha de produtos infantis Natura Naturé, lançado em maio último.

O respeito e valor de nossa marca estão baseados na qualidade das relações que mantemos com todos e cada um dos nossos públicos. O post de Zé Renato no blog zerenato.com.br/blog, com parte do conteúdo replicado no Portal Luís Nassif, por Erico Baymma, está equivocado e questiona nosso compromisso com a ética e a verdade. A Natura jamais se apropriaria de idéias ou estruturaria um programa apenas pro forma, como induzem.

Lamentamos que ele e você não tenham nos procurado antes para apresentarmos os fatos:

· Em 2006, a Natura contratou o grupo Palavra Cantada para começar a criar músicas inspiradas no tema “descobrindo o mundo através da água” para a nova linha infantil da empresa, Natura Naturé, que estava em desenvolvimento. Vale esclarecer que o processo de criação e desenvolvimento de Natura Naturé já havia começado pelo menos um ano antes. Como acontece normalmente, a criação de uma nova linha de produtos demora de três a quatro anos até seu lançamento;

· A Natura acredita nos seus produtos como ampliadores de consciência, veículos para provocar mudanças. Por isso, além dos produtos, para sustentar a proposta conceitual da linha Natura Naturé, a empresa firmou este contrato com o Palavra Cantada como parte de suas ações de marketing, sem nenhum vínculo com o Programa Natura Musical;

· Em junho de 2008, Natura Naturé foi lançada no mercado para imprensa e força de vendas com a proposta de incentivar o cuidado das crianças com a natureza por meio da água através de produtos. Fizeram parte do lançamento, produtos com embalagens que remetem às torneiras, e um livro infantil, “Tchibum no Mundo! A Grande História da Água”, escrito exclusivamente para a Natura, por Simone Fonseca, que era adquirido gratuitamente na compra de qualquer colônia da linha;

· Para este lançamento, Natura contrata novamente o grupo Palavra Cantada. As músicas, compostas em 2006, são utilizadas nas campanhas de marketing de lançamento da linha, e nos eventos de lançamento dos produtos para força de vendas e também para imprensa;

· Em Janeiro de 2009, ainda como estratégia de ampliar consciência das crianças sobre o tema água, Natura promove um concurso de Natura Naturé, que convidou as crianças a enviarem inspirações sobre o tema da água através de seu hotsite, que serviram de inspiração para a Palavra Cantada criar "A Grande Música da Água", divulgada no dia mundial da água, 22 de Março;

· Um ano após o lançamento de Natura Naturé, em 10 de julho de 2009, Natura abre inscrições para o Edital Nacional 2009 do Natura Musical. E recebe, via correio, inscrição do projeto “Água para que? Cada gota um tesouro”, nas categorias turnês e fomento, voltado para o público infantil. Posteriormente, Natura registra pedido para mudança do nome do projeto para “Água Pras Crianças, Cada Gota É Um Tesouro”;

· Em 12 de Outubro de 2009, para comemorar o Dia das Crianças, Natura lança CD Especial “Tchibum, a grande trilha da água”, com 11 músicas do Palavra Cantada, incluindo as quatro criadas especialmente para Natura Naturé. O CD é adquirido gratuitamente juntamente com a compra de produtos da linha;

· Em 19 de outubro de 2009, o projeto "Água Prá Crianças? Cada Gota é um Tesouro" é classificado pela Comissão Técnica do Programa Natura Musical (formada por especialistas em música - Alexandre Youseff, Maria Luiza Kfouri, Antônio Carlos Miguel e foi recomendado como pré-finalista na categoria Turnê para a avaliação do Comitê Estratégico. Como parte do processo de classificação, todos os projetos que são levados para o Comitê Estratégico passam por uma certificação das informações apresentadas na inscrição. Portanto, a Significa, empresa responsável pela implementação do processo de seleção do Edital Natura Musical, entra em contato, via email, com o proponente para certificação de informações do projeto. Conforme histórico de comunicação, registrado na Natura, sempre esteve claro e transparente que este contato não significava a garantia de patrocínio;

· A Natura dispõe dos contratos fechados com o grupo Palavra Cantada, assim como mensagens eletrônicas trocadas pela empresa e o grupo desde 2006 sobre o projeto de lançamento da linha Natura Naturé.

Informamos que o programa Natura Musical é coordenado pela área de Marketing Institucional da Natura e, assim como as demais propostas, o projeto "Água Prá Quê? Cada Gota é um Tesouro" foi posteriormente arquivado e, em momento algum, foi compartilhado com outras áreas da empresa.

A Natura não tem dúvidas quanto à maneira séria e transparente com que os dois processos acima descritos foram tratados e se coloca à disposição para mais explicações e esclarecimentos referentes à essa questão.

Sendo assim, solicitamos a retificação das informações constantes em seu site.

Atenciosamente,

Rodolfo Guttilla
Diretor de Assuntos Corporativos da Natura

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Minha resposta à Nota de Esclarecimento da Natura, enviada ao sponsor Luiz Nassif, do Portal onde alojo meu blog.


30/06/2010

Prezado Senhor Rodolfo Gutilla,

Não é de minha intenção sujar o nome de sua empresa, Natura, à qual tenho, pessoalmente, o maior respeito, inclusive consumindo regularmente seus produtos.
Observando o texto, verá que possui prioritariamente a intenção de fazer reflexões a respeito da forma de produção cultural e como está sendo fomentada.
A forma e o conteúdo se dirigem à reflexão da informação em tempo real, ou seja, as informações pertinentes estarão sendo publicadas de forma a manter o leitor informado até em "como se faz a produção de textos para a reflexão, experiência e formação de conhecimento", cuja prática é a que acredito.
Como poderá ver, a parte em que se refere a informações questionadas por sua empresa, está devidamente "em alerta", como questão em processo, e não como informação precisa - de acôrdo com a sua Nota de Esclarecimento, o que no mínimo reflete o respeito à sua empresa e suas informações, e é devidamente inserida em meu texto.
Espero que a minha forma de retificação seja antes entendida, como processo em exposição do que a vida real se apresenta.
Contudo, tem sido de meu espanto que o meu texto, que vem refletir sobre as práticas de fomento à cultura, claro que através de um exemplo "em processo", tenha chamado mais atenção do que o posto pelo próprio autor da declaração, o compositor e cantor Zé Renato.
As informações de sua empresa não foram colocadas anteriormente por não termos acesso, "nós blogueiros", a instâncias superiores das instituições, como a sua empresa e cargo - ou em qualquer formato que viesse ter a autoridade de fornecer declarações. Não seria por que sou participante do Portal Luis Nassif que teria prioridade de acesso a qualquer nível de informação da presente discussão.
Assim, fica posto o respeito à Cultura e à produção cultural, em qualquer nível, e com respeito a todos os envolvidos, que têm, assim, condições de presenciar a formação de um fato.

Saudações
érico baymma
ARTISTA

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Zé Renato edita em seu blog no Facebook:

Ponto Final
quarta, 30 de junho de 2010 às 19:18

Com relação a reportagem publicada hoje gostaria de fazer algumas considerações e tentar virar essa triste página da minha vida profissional. Em primeiro lugar “questionar” é um direito civil que qualquer cidadão tem, podendo exercê-lo quando achar necessário. E foi exatamente isso que eu fiz. Não acusei e sim questionei. Os argumentos e respostas da empresa não confortam minha indignação ao ver um trabalho construído há 5 anos ameaçado na sua originalidade e ineditismo .Por que eu haveria de saber que já existia um projeto na empresa sendo desenvolvido com o grupo Palavra Cantada, grupo este por quem tenho profunda estima e admiração? Ao contrário, a empresa sim, teve acesso direto a meu projeto. Como reagir ao fato de não ter meu projeto contemplado e meses depois ver uma grande (e nova) campanha da Natura tratando das mesmas questões do meu projeto?
Em momento algum a minha colocação teve como intuito desonrar a imagem da instituição Natura e sim questionar os métodos utilizados por um determinado setor da empresa.A minha carta desabafo não faz acusações, mostra sim a minha posição como cidadão e músico com mais de trinta anos de profissão.
Um trecho de minha carta diz: “...idéias e semelhanças estão no ar. E ma fé também.”
A carapuça, vista-a quem achar por bem. Ponto Final.



Esta publicação foi postada originalmente no Portal Luis Nassif em meu post  (Clique em "meu post" para ver a publicação original).

Da necessidade de atualização - pessoa versus instituição

Muitos devem saber do fato ocorrido no entrevero entre Globo (Fátima Bernardes, jornalista) e Seleção Brasileira de Futebol (Dunga, técnico responsável), onde um contrato de exclusividade foi devidamente rasgado, provocando palavrões e outros espetáculos dos espetáculos financiados pelas grandes instituições. Não menos previsível o fato de textos jorrando na internet a respeito e a favor, ou contra, isso ou aquilo, o vídeo em que se faz leitura labial dos palavrões ditos pelo técnico Dunga a profissionais envolvidos no infame acontecimento. Acrescente-se um editorial lido por William Bonner, jornalista editor do Jornal Nacional, colocando todos os contras ao “comportamento” de Dunga. Este é um brevíssimo resumo, por considerar que muitos já estão cansados de saber do ocorrido, de ler os artigos publicados na internet e de outras ações no entorno, que mais me nauseiam.

A matéria toda, repleta de todas as incursões, digressões e ataques de vários tipos, gerou uma discussão de valores, ainda no nível das instituições, o que me parece inadequado. Estas coisas acontecem e levam à necessidade de reflexões mais aprofundadas a respeito, numa observação atenta e centrada para o entendimento de como a vida é feita no contemporâneo. Será somente contemporâneo desde quando? Não por outro motivo, Guy Debord escreveu o polêmico “A sociedade do espetáculo”, há anos, em que propõe a teoria do fato da informação como alimento do fato aumentado e consumido, alimento da conseqüência do fato e o que se pode falar destas repercussões e assim, interminavelmente, informação e dinheiro são gastos para um tal hábito de consumo de “cultura” e atualização. Vai ficando mais claro que, neste fosso econômico da informação, as práticas estão demasiado desalinhadas no tempo, proporcionando que não surjam entendimentos mais claros sobre como a coisa é feita.

Nos anos 90, quando comecei a estudar mais assiduamente teorias de percepção, fiquei imaginando o que seria produzido no contexto do conhecimento humano no novo século que levasse a uma leitura mais apropriada do presente, querendo e duvidando que, no presente, anos 2000, este pudesse ser lido, de forma clara e tempo real. Claro, esta dúvida advinha da clareza que estava em formação em mim, era anunciada por obras de 100 anos ou mais – eu que pensava que a humanidade caminhava! Bom, pelos métodos desta série de assaltos à inteligência, ficamos expostos aos mesmos mecanismos de conquistas de espaço à força, sem a mínima sutileza de articulação.

O interessante nesta discussão é que emerge uma questão essencial, o fundamentalismo, que já deveria estar ultrapassado, pelo menos nas relações pessoais, principalmente nas crenças individuais. Os discursos clichês e os rótulos desgastados, sem aderência, tentam sobreviver, mesmo que se viva e saiba que ocupamos estes espaços de acontecimentos e indução de conhecimento sem condições de reconhecimento de alguma face dos verdadeiros intuitos que se desenvolvem como vírus dentro da cultura, já apropriada do senso do indivíduo, afastando as possibilidades de se ver o quanto cada um tem a ver, mesmo, com este mecanismo todo e o quanto está irredutivelmente distanciado de sua vida, do que esta é formada, quais os vínculos reais, entre outros pontos. O indivíduo que não sabe onde inicia e acaba a sua ação na vida está alienado a condição de defesa do nada.

Não existe "o povo brasileiro", "o povo americano" etc... Isto é coisa de instituição e elas estão frágeis demais pra segurar as falsas premissas em fraturas expostas e os discursos que vão sendo elaborados e expostos no cotidiano, como forma de manter uma unidade social (falsa premissa), quando o intuito forte é fazer resvalar valores na e para a instituição econômica. Os paradigmas atuais não compreendem mais esta maneira caduca. Tanto é um absurdo, por exemplo, que a Espanha tenha sido bombardeada há poucos anos, pois em 1300 e tantos os representantes do país fizeram não sei quê aos "não sei quem". Com o devido respeito: vá ter mágoa e rancor assim lá na casa... !!!!

Que "o futebol brasileiro" seja representado por um Dunga não é muito diferente de qualquer outro que teve em sua época a chance de exercer a sua linguagem, a sua expressão dentro dos preceitos possíveis do corrente vocabulário. Todos eles se zangaram, todos disseram palavrões, todos peitaram, mas nenhum ultrapassou a barreira cruel da informação em tempo real, sem intervenções e bips. Eles foram coniventes com a estrutura do poder, por que achavam que não se poderia afrontar "em nome do que quer que seja". E se a barreira foi furada, está muito mais na fragilidade e imaturidade dos representantes da comunicação do que um ato heróico de Dunga que, ao contrário, à medida que este ato se torna público está desenhado o código das coisas. O espetáculo aqui testa colocar o vilão em evidência – aquele “que diz palavrões e é um grosso” e que representa a equipe brasileira de futebol – que, na verdade, conduz a seleção brasileira, na busca por uma conquista a mais para o futebol brasileiro. Quem está afrontando, enfim? Afinal, não é necessária a agressividade para fazer a bola rolar? Em episódios passados, eles não noticiaram...

Numa comparação tosca, se o BigBrotherBrasil retira os palavrões com um bip, poderia bem respeitar àquele que está representando o "futebol brasileiro". A “Venus Platinada” está ganhando muito dinheiro com isso! O futebol é atividade econômica prioritária, a ponto de os colocarem em disputa nas verbas patrocinadoras, antes somente para as atividades culturais e artísticas, junto ao Estado. A crença que o futebol é o máximo do máximo na cultura brasileira foi uma invenção implantada pelos sistemas de informação em conjunto com a ditadura militar. Hoje não temos mais a ditadura militar, mas a ditadura econômica que se impõe no mais alto grau da tecnologia: a (des)informação. A informação agora nega o valor e requer o controle exclusivo do e no futebol, enquanto este mesmo lhe proporciona muito dinheiro? Tal não é tão estranho quanto vislumbrado pela famosa história (ou estória) da doença do jogador Ronaldinho no final da Copa, fazendo com que a equipe brasileira cedesse ao direito de campeão para um direito “maior” posterior, vinculado à hospedagem da próxima Copa do Mundo. Vão querer se desvincular do poderio de formação de opinião que o futebol traz historicamente? E vão aliar a quê? A informação não sobreviverá no espelho, pouco sobreviverá de criativo para sequer transformar-se em arte, com estas vaidades mal alocadas.

A coisa do espetáculo: Dunga peita a Globo! Viva Dunga! O Futebol Brasileiro afronta a grande da indústria de comunicação! O povo grita: Viva! Como se fosse um GOL ! E como se esse GOL fosse “de placa”, direto na série de problemas estruturais que carregamos e tudo estivesse resolvido, assim como se a Copa vier ao Hexa e, novamente, a vida não vai mudar. Simples palavrões se tornam "gritos de independência ou morte". Qué isso??! Estamos adultos para não perder o prumo. Qual prumo?

Coisas sérias: indivíduos e instituições. A briga é institucional. Pensamos ter acesso, mas somos reles mortais, por mais que uns ou outros, ou todos, tenham um nome firmado em qualquer dimensão da vida, e tentem somar às suas personalidades a representação de grandes instituições. Falou um especialista em política internacional que os EUA têm a força por conta do "reforço às instituições". Sabemos todos das fragilidades óbvias desta instituição - e de qualquer uma. Não nos enganemos.

Como "dirigente institucional da equipe futebolística", Dunga deu um não à pressão de mais uma instituição que se sente soberba em seu poderio sobre uma atividade desportista, que gera interesse público e dinheiro, muito dinheiro, em decorrência. A Globo, via Fátima (ou vice-versa), sentiu-se aviltada por não poder cumprir o mandato, a exclusividade. O que era institucional, tornou-se articuladamente individual - ELA sentiu-se aviltada!, voltou para o Brasil com fins de ampliar o fato; e a situação foi revertida de uma forma torpe e grosseira para qualquer faixa intelectiva, para qualquer ser humano, de forma que o indivíduo Dunga, que “ocasionalmente” é técnico, passe a ser um sujeito grosso, mal-educado etc etc. A instituição Globo pune o indivíduo Dunga e não o técnico que se propõe a não aceitar pressões. A Globo aceita pressões, senão aquelas completamente negociadas e que exigem uma articulação? Os indivíduos devem aceitar as pressões da Globo ou de quaisquer instituições que lhe negam o direito soberbo da individualidade, subjetividade e, num passe de mágica, a palavra mágica: cidadania? A Globo assume o nome Fátima?

Todo mundo quer ser presidente!!!? Vai tentar articular algo nesta miséria posta com nome INSTITUIÇÃO?

O fato é lamentável desde a exclusividade, passando pelos rasgos e palavrões, até um discurso hipertosco do marido da nobre aviltada global. O sapo era pra ser engolido, sem a menor sombra de dúvida, neste jogo de inteligência estratégica da informação e comunicação.

Viva a ninguém! Que se aprenda o que está no foco e se realinhe. Acredito que isto seja imperativo e que as articulações em torno das atividades se conectem com mais maturidade e as pessoas venham, enfim, a ampliar a percepção de mundo e a ver, ter e fazer por aspectos mais positivos em seu cotidiano, tomando as rédeas de suas vidas, do que continuar submergindo nesta posição reiteradamente caduca dos gestores de instituições e suas idéias. (Será que promovem treinamentos e reciclagens por lá?)

A Seleção Brasileira de Futebol merece patrocínio e não exclusividade. “Representando o país” e sendo mola-mestra da esperança do brasileiro, bem como sendo motriz no sistema econômico, muito se faz e diz em nome disso e pouco se respeita. O futebol é um motivador para os jovens, como fator de esperança real, um possível articulador das tensões de agressividade, além de, como a música, ser reconhecida internacionalmente como uma dos recursos humanos mais legítimos no país. No entanto, não é isso que se põe a favor ou contra ninguém.

Lamenta-se o fato pelo cruel da realidade revelada, cuja voz ainda vai reverberar pelos silenciosos corredores do “invisível”...

Segunda-feira, Maio 17, 2010

O Caneco quebrado

Parece que nasci com a palavra Canecão, na minha boca. No entanto, ela era, desde os “primórdios”, algo que sustentava minha atenção de criança quando, por tantos eventos, tudo parecia acontecer no Canecão.

Ainda era mineiro e tudo o que me importava na vida, primordialmente, vinha deste lugar chamado Canecão. Canecão: via, dentro, acontecer toda a maravilha da música que começou a formar minhas bases para o que se deu o nome de MPB, Música Popular Brasileira. Canecão, o berço. A MPB, meu alimento.

Já bem crescido, no agora deste novo milênio, vi que a MPB era um rótulo que, pela degradação de vários sustentáculos da formação de uma enorme sociedade brasileira, passou a incomodar, com grande estardalhaço, às novas gerações tão plurais de estilos, linguagens, de músicos e artistas, pelas entranhas em que algo é posto, principalmente pela batuta da ditadura econômica, que a tudo gera, sobre tudo impera e que faz surgir e sumir como um grande mago. A economia, o poderoso cajado, sofrendo da calamidade do surgimento de novas vias de acesso às informações, pouco a pouco, como sutilmente, vai apagando os rastros para que não se entenda o grande mecanismo engendrado pelo que fundamentou a indústria da comunicação e do entretenimento. Muitas coisas são mortas na construção de uma história que será repassada. Não sei ao certo se a música é algo que sucumbirá a tal ação destruidora, afinal, “nossa música” fincou na “alma dos brasileiros” um grande orgulho por “algo nosso”, da “pátria” – esta grande extensão de anônimos, de culturas completamente diferentes de 10 em 10 km, trazendo-os à convergência de uma ideologia sobrevivente pela “contramão necessária” a tudo que se pretende fazer existir na vida, à época.

Infelizmente, a necessidade de rótulos durou muito mais que o necessário. E a supremacia de algo necessariamente forte para opor-se a um discurso totalitarista, trouxe à MPB o cunho pouco degustável de uma diversidade que haveria de ter sido fruida como diversidade, que é “nosso” contexto. O Brasil é grande demais para que algo seja definitivamente “nosso”. A música sob o cunho de MPB tinha vertentes demasiado diferentes para significar algo além de artistas com dotes para a música e para a performance no grande espetáculo. A MPB alocou amigos em comum que falavam de jazz com vários temperos das tradições brasileiras, pela ludicidade de Gilberto Gil, que compunha músicas para a primeira estrela multimídia, Elis Regina, que lidava com todas as facetas do que “é novo” na música brasileira e expandia espaços múltiplos e alocava autores a todo custo, além, aquém e apesar dos gritos novos das guitarras, das imposições político-militares e que, mesmo rechaçada por alguns atos, conseguiu sobreviver em seu talento inegável de lidar, precocemente, com competência “mais que necessária”, num mundo altamente competitivo. Aliou-se a Chico Buarque na sabotagem à TV, por motivos políticos; e viu-se só, quando Chico voltou à TV, no que se voltou prontamente ao veículo que a expusera para o mundo que a acolheu “tão bem”. Eram atitudes necessárias e pouca influência tiveram no apagamento de sua obra; ao contrário, fez com que crescesse em seu ser artístico. Trouxe Milton Nascimento, João Bosco, Renato Teixeira e tantos outros nomes. E por tantos outros nomes que não serão citados, ficam os escritos como representantes de toda uma “linhagem” que formou a indústria fonográfica e do entretenimento durante décadas.

No entanto, lembro-me bem que as “donas” do Canecão eram Maria Bethânia e Gal Costa – em seus maiores espetáculos – realizando lá o fundamento da cultura de shows de estádios que imperou a partir dos anos 80 e, a partir dos anúncios do fim de 90, espalharam estádios vazios por todo o território nacional. Não se trata de culpa de artista algum: foi um novo modo de fazer e que, pessoalmente, acredito que sejam mais um ponto para a derrocada da própria MPB e de formas possíveis de realização de shows por todo o território nacional. Os shows de teatro, que eram tão preciosos, voltaram a ser os redutos dos resistentes do hoje, que em suas, agora chamadas, “músicas populares de câmera”, voltam-se aos espetáculos intimistas, com maior possibilidade do encontro do artista com sua arte e o público chegando mais perto desta essência indiscutível – mesmo que ainda sobrevoem os conceitos norte-americanos de que música é tão somente performance e entretenimento.

O Canecão viu toda esta história, viu nascerem os espetáculos com porte, fez se espalharem grandes casas de shows, numa reorganização da economia do espetáculo musical. O “grande caneco” – que era o que imaginava ser o visual da casa de show, enquanto criança – presenteou o mundo com vários dos grandes espetáculos não somente nacionais, mas com atrações internacionais de peso. O Canecão era um centro representativo do que acontecia e ia acontecer na indústria da música brasileira popular.

Entramos no “confuso” novo século XXI. A “anarquia” da internet já fazia divulgação de formas de exercício de vida praticadas comumente aqui e acolá, deu luz aos espaços e artistas independentes, apresentou o “ilegal” da pirataria – que depois foi utilizado como forma de manter viva a visibilidade e fidelidade a diversos artistas "institucionais", já que a forma de consumo de música definitivamente já não era a mesma. A briga continua feia ao nível internacional pelos direitos do autor, mas pouco a pouco se vão reconhecendo os novos paradigmas que estabelecem as relações das pessoas em uma organização “global” e difusa.

Quem consegue aparecer, vai conseguir fazer. Como se colocar diante de tal frustrante ausência de coordenação motora para um pensamento baseado na produção de capital de retorno imediato? Incontáveis páginas espalhadas por toda a Terra dão a conta do incomensurável da possibilidade e da impossibilidade do controle à projeção.

Tornou-se vital à exposição de qualquer atividade que a pessoa tenha sua página na internet, com visual arrojado, com atrativos de promoções a bônus musicais inéditos, todas as espécies de contorcionismos que refletem o que no Brasil acontece: desde o início dos 2000, artistas foram perdendo platéia, os meios de comunicação não imperam na formação de opinião, o risco de realização de um show, em qualquer lugar, é algo descartável. Os grandes shows não se pagam. Os pequenos shows são inaudíveis. Os “independentes” vão marcando seus pequenos passos por uma trilha de trabalho e show e espetáculo do espetáculo: formas menores de fazer acontecer sonhos musicais diferentes das gerações anteriores. Nada muito diferente do que foi o estabelecimento da Bossa Nova ou da MPB – que são inegavelmente patrimônios nacionais (mesmo que tenham uma diversidade de conceitos e estilos, principalmente a MPB que demarca muito mais uma época do que uma “forma de fazer”, uma linguagem).

O anti-projeto, ingovernável, estabeleceu-se.

Hoje, leio com certa tristeza que o Canecão fechou – por questões de dívidas e outras (não fui mais a fundo). Mas a notícia muito mais me deixa perto da realidade pronta do agora: estamos fechando a porta de um passado rico e supremo em seu formato para um anúncio do indizível, por não ter forma definida, mesmo.

Não sei se por descaso, a indústria já deixara de se interessar pelos medalhões que durante tantos anos fizeram um front musical ativamente virtuoso e diverso, até serem engolidos pelas fórmulas de retorno imediato, o que desgasta qualquer coisa. Antes até eram mantidos como forma de dar "prestígio à casa". Nada do que sustentava esse pensamento existe hoje - senão o que vende.

Medalhões arranjaram uma nova casa: a Biscoito Fino. Todos os que um dia reconheci como grandes autores, que formalizaram esta diversidade riquíssima entre bossa nova e MPB e espetáculo musical, estão alocados lá. Não falo sobre outros selos, que existem e têm sua importância vital neste processo de revisão de conceitos a respeito da música e da indústria do entretenimento. No entanto, a Biscoito Fino, devagar como um mineiro, alojou as pérolas e medalhões da música popular brasileira, além de representar grande parte da boa música instrumental produzida – sem com esta afirmativa estar deixando de ver o caso mais saudável de desconcentração de poderes no que vários selos vão se colocando, aversos a rótulos, com artistas e músicos de extrema sensibilidade e talento. A Biscoito Fino tornou-se indústria. Os selos que nascem continuam sua sóbria independência, com o rigor merecido pela música brasileira e por “nós” que sempre nos orgulhamos de tê-la.

O Canecão fecha suas portas para que a realidade seja constatada. O mercado musical e do espetáculo sofre. Vários artistas estão sem trabalho, sem ter onde tocar, sem conseguir levar seus projetos adiante. O passado é exigido agora, sem memória e sem orgulho.

A história é contada de diversas maneiras, com vários outros detalhes. Esta é a minha. Continuo ouvindo todas as músicas de todos os tempos: as que respeito. E que cada um reaprenda a respeitar o seu próprio modo de ver sua história, sua formação e seus ícones musicais; sejam novos, sejam nacionais, sejam exteriores.... Mas que se contaminem pelo grande da música que sobrevive a qualquer desrespeito que tente se impor ao que vem da alma.

Obs: Após a publicação deste textos surgiram críticas ao não aprofundamento das responsabilidades dos diversos componentes que geriram ou que requerem o fechamento e o prédio do Canecão. Não nos posicionaremos a respeito, nem foi intenção desprezar responsabilidades e direitos pois, como foi dito, esta é a minha visão e não estou inteirado documentalmente.
Espero que os que se sentem prejudicados neste processo saibam que têm o meu maior respeito considerando a legitimidade e a complexidade deste problema.

Segunda-feira, Abril 19, 2010

A diversidade num mundo (im)perfeito

O físico Marcelo Gleiser apresenta seu novo livro Mundo (Im)perfeito: cosmo, vida e o código oculto da natureza(Record) onde traz uma série de constatações possivelmente pensadas pelas pessoas no cotidiano e imaginadas por artistas e pensadores: a ideia de que o mundo não traz soluções tão perceptivelmente coadunadas em alguma sistema de estética da ou pela simetria – na qual coloca, por exemplo, a religião, monoteísta, como indutora deste pensamento de uma integração mensurável e tangível de todas as coisas da Terra, às quais teriam sido atribuídas um perfeito arranjo simétrico. Tal afirmativa já traz bastante material para uma reflexão, questionando o sistema de “invenção de crenças” de acordo com uma ideologia primeira, onde se reflete uma nova visão de que, além de juntar os conhecimentos científicos às experiências da vida, como tal, dá-se uma abertura a um terceiro foco que agrupa ciência e empirismo de outros sistemas de pensamento mais abertos, focado na grande experiência universal.

Assim, propõe a ideia do humanocentrismo, na constatação de que à medida da percepção já constatada pelo universo da ciência, como referencial, não há sinal de que fora da Terra haja possibilidade de existir vida inteligente, o que traz a raridade dos humanos e a necessidade essencial de cuidar do planeta, como único lugar propício para a existência, a “nossa casa”. Cita as formas de vida primitiva, monocelulares, entre outros seres existentes há milhões de anos, que é o máximo constatado fora da Terra, negando possibilidades quaisquer de outras oportunidades para a vida humana.

À frente da afirmativa de uma diversidade única existente na Terra, ele diz: “Percebi que a estética da ciência, baseada nessa noção de perfeição, de que simetria é beleza, e beleza é verdade, é uma estética ultrapassada, que tem que ser mudada. O mesmo aconteceu com a música e a arte no começo do século XX.”

O fato da perfeição estar aliada à simetria e que propõe uma estrutura de coligação entre beleza e perfeição como um sistema ultrapassado já dá margem a uma grande evolução do que chamo agora “pensamento da diversidade”. Não é preciso ir longe para admitir a individualidade como “item singular”. Apesar da cultura ser pensada buscando uma “monogamia de crenças”, várias são as pesquisas que detectam que num espaço de 100 km, por exemplo, ao passar por vilarejos ou pequenas comunidades, a cultura reflete a diferenciação em mínimos detalhes, que propõem uma identidade de práticas próprias em cada pequeno grupo e completamente diferentes entre si. Isto explica também o grande embate cultural para um grande país como o Brasil no que, comparando aos países europeus, seus vilarejos, idiomas e infinitos dialetos, confirma o quão diversa é a vida praticada e até o incomunicável das divergências totais de língua, inflexões, expressões e todos os costumes que ainda poderiam formar uma identidade – tal capacidade vai por águas abaixo na prática. E o Brasil, em sua enorme extensão, procura concentrar identidades culturais à força das crenças de uma eficácia dos mecanismos tradicionais de controle do indivíduo e da sociedade em prol de um bem-estar social que se mostra caótico e impossível de um reajuste, resultando na produção massiva de miséria, às custas de “um algo” que sustenta uma economia excluidora, caduca, anacrônica, dentro das ideias já praticadas em países desenvolvidos (intelectualmente) de que é a partir da uma real formação de sistemas de distribuição de renda e de educação mais adequada, entre tantas necessidades prioritárias, que se pode buscar um eixo mais seguro para comandar um Titanic já soçobrando. Tudo é proposto pela economia, como o conceito de nação, para um país de tantas heterogeneidades e que consegue assim fazer com que os sistemas induzam consumos padronizados, fidelizados à força. No entanto, esta mesma economia precisa de uma revisão ideológica para a preservação de seu próprio sistema de concentração de renda. Já, não será possível continuar com essa guerra civil que extermina a possibilidade de um “ser brasileiro pacífico”. Onde serão agregados recursos para manter o canal direto para o vil metal?

O que particularmente se vê de mais interessante é uma abertura, um aval libertador do sistema de conhecimentos, de produção de pensamento, de normas de conduta, de uma fuga tão esperada dos processos industriais e pasteurizadores de padrões de comportamento, preferências pessoais e assim por diante.

A possível desvinculação de um sistema estético estruturado pela harmonia de seus elementos como norteadores, como elementos que “facilitam uma organização psicológica interna”, traduz, inclusive, o uso reduzido da capacidade mental, que hoje dizem entre 5 e 10%, no máximo. Aliás, esta afirmativa sempre teve seu ar misterioso e a empáfia do positivismo.

Certamente a junção de sistemas de pesquisas científicas a de produção de conhecimento e pensamento (filosofia e outras disciplinas) trazem um olhar possivelmente não definitivo, mas bastante esclarecedores para a repressão por padrões e rótulos utilizados nos processos de civilização e, quisera, venha a desnortear, levar ao caos e dele retorne uma cultura “projetada” na aceitação das grandes diferenças e formas singulares dos sistemas de organização, seja psicológico, social, econômico ou em qual disciplina se queira usar para refletir este “grande mistério da vida”.

Link para a entrevista de Marcelo Gleiser: http://www.saraivaconteudo.com.br/Artigo.aspx?id=256

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Terça-feira, Dezembro 15, 2009

Apocalipses - os fins, sem meta

Recebi hoje, com o devido cunho dramático advindo do fazer midiático, mais um dos incríveis achados dos que buscam na notícia seu lugar ao sol; neste caso, seguindo a marca do “fim dos dias”, “o fim da canção”, agora temos o “fim dos cantores”. Particularmente, não acredito que nas universidades haja uma disciplina própria para os “apocalipses”, mas certamente haverá alguma de como tornar “importante” o que você fala para quem quer que seja, nem que seja pura besteira.

Ao receber a mensagem de um cantor por quem tenho grande apreço, veio um certo desgosto pela falta de assunto que é produzida neste meio, como o tédio pessoal de quem não gosta de fazer o que acha que tem que fazer, dá neste revertério de “sublimes afirmações” – tão sublimes quanto fantástico pensar que se chama a atenção por uma afirmação dessa.

Novos modos de prática de antigos fazeres sempre surgirão e não virá da desaquecida tormenta dos formadores de opinião – pois, como a indústria fonográfica despenca em sua capacidade totalitarista de impor gostos, assim recaem degraus abaixo os tais escreventes de "notícias", meros atos falhos.

Sabe-se de algo que assertivamente ganha o cunho de importância e significação: o tédio impresso reverbera inclusive sobre a própria profissão de repórter de algo de interesse social. A cada dia, dependendo da perspicácia colocada no texto, alguns se salvam, mas configura-se uma manada enjoada de textos sem poética, sem verve, sem admiração, sem nada de atrativo, trazendo de volta à fonte o desinteresse crescente pelos meios de informação.

A canção não acabou, o mundo todo se celebra através das canções. O cantor não deixou de existir, o mundo todo celebra a arte especial deste tradutor de emoções lítero-musicais. A música não está prestes a se acabar. A forma de produção, de divulgação, de chegar ao público e o próprio organismo cultural está se reformulando para uma nova postura. Tem-se algumas notícias sobre formatos alternativos de fazer, difundir e distribuir, mas em nenhum momento vê-se que haverá um buraco negro o suficiente para que se extingam as coisas relativas às músicas, senão um buraco maior ainda cavado e chamariz daqueles que não querem entender que profecias são outra disciplina.