Parece que nasci com a palavra Canecão, na minha boca. No entanto, ela era, desde os “primórdios”, algo que sustentava minha atenção de criança quando, por tantos eventos, tudo parecia acontecer no Canecão.
Ainda era mineiro e tudo o que me importava na vida, primordialmente, vinha deste lugar chamado Canecão. Canecão: via, dentro, acontecer toda a maravilha da música que começou a formar minhas bases para o que se deu o nome de MPB, Música Popular Brasileira. Canecão, o berço. A MPB, meu alimento.
Já bem crescido, no agora deste novo milênio, vi que a MPB era um rótulo que, pela degradação de vários sustentáculos da formação de uma enorme sociedade brasileira, passou a incomodar, com grande estardalhaço, às novas gerações tão plurais de estilos, linguagens, de músicos e artistas, pelas entranhas em que algo é posto, principalmente pela batuta da ditadura econômica, que a tudo gera, sobre tudo impera e que faz surgir e sumir como um grande mago. A economia, o poderoso cajado, sofrendo da calamidade do surgimento de novas vias de acesso às informações, pouco a pouco, como sutilmente, vai apagando os rastros para que não se entenda o grande mecanismo engendrado pelo que fundamentou a indústria da comunicação e do entretenimento. Muitas coisas são mortas na construção de uma história que será repassada. Não sei ao certo se a música é algo que sucumbirá a tal ação destruidora, afinal, “nossa música” fincou na “alma dos brasileiros” um grande orgulho por “algo nosso”, da “pátria” – esta grande extensão de anônimos, de culturas completamente diferentes de 10 em 10 km, trazendo-os à convergência de uma ideologia sobrevivente pela “contramão necessária” a tudo que se pretende fazer existir na vida, à época.
Infelizmente, a necessidade de rótulos durou muito mais que o necessário. E a supremacia de algo necessariamente forte para opor-se a um discurso totalitarista, trouxe à MPB o cunho pouco degustável de uma diversidade que haveria de ter sido fruida como diversidade, que é “nosso” contexto. O Brasil é grande demais para que algo seja definitivamente “nosso”. A música sob o cunho de MPB tinha vertentes demasiado diferentes para significar algo além de artistas com dotes para a música e para a performance no grande espetáculo. A MPB alocou amigos em comum que falavam de jazz com vários temperos das tradições brasileiras, pela ludicidade de Gilberto Gil, que compunha músicas para a primeira estrela multimídia, Elis Regina, que lidava com todas as facetas do que “é novo” na música brasileira e expandia espaços múltiplos e alocava autores a todo custo, além, aquém e apesar dos gritos novos das guitarras, das imposições político-militares e que, mesmo rechaçada por alguns atos, conseguiu sobreviver em seu talento inegável de lidar, precocemente, com competência “mais que necessária”, num mundo altamente competitivo. Aliou-se a Chico Buarque na sabotagem à TV, por motivos políticos; e viu-se só, quando Chico voltou à TV, no que se voltou prontamente ao veículo que a expusera para o mundo que a acolheu “tão bem”. Eram atitudes necessárias e pouca influência tiveram no apagamento de sua obra; ao contrário, fez com que crescesse em seu ser artístico. Trouxe Milton Nascimento, João Bosco, Renato Teixeira e tantos outros nomes. E por tantos outros nomes que não serão citados, ficam os escritos como representantes de toda uma “linhagem” que formou a indústria fonográfica e do entretenimento durante décadas.
No entanto, lembro-me bem que as “donas” do Canecão eram Maria Bethânia e Gal Costa – em seus maiores espetáculos – realizando lá o fundamento da cultura de shows de estádios que imperou a partir dos anos 80 e, a partir dos anúncios do fim de 90, espalharam estádios vazios por todo o território nacional. Não se trata de culpa de artista algum: foi um novo modo de fazer e que, pessoalmente, acredito que sejam mais um ponto para a derrocada da própria MPB e de formas possíveis de realização de shows por todo o território nacional. Os shows de teatro, que eram tão preciosos, voltaram a ser os redutos dos resistentes do hoje, que em suas, agora chamadas, “músicas populares de câmera”, voltam-se aos espetáculos intimistas, com maior possibilidade do encontro do artista com sua arte e o público chegando mais perto desta essência indiscutível – mesmo que ainda sobrevoem os conceitos norte-americanos de que música é tão somente performance e entretenimento.
O Canecão viu toda esta história, viu nascerem os espetáculos com porte, fez se espalharem grandes casas de shows, numa reorganização da economia do espetáculo musical. O “grande caneco” – que era o que imaginava ser o visual da casa de show, enquanto criança – presenteou o mundo com vários dos grandes espetáculos não somente nacionais, mas com atrações internacionais de peso. O Canecão era um centro representativo do que acontecia e ia acontecer na indústria da música brasileira popular.
Entramos no “confuso” novo século XXI. A “anarquia” da internet já fazia divulgação de formas de exercício de vida praticadas comumente aqui e acolá, deu luz aos espaços e artistas independentes, apresentou o “ilegal” da pirataria – que depois foi utilizado como forma de manter viva a visibilidade e fidelidade a diversos artistas "institucionais", já que a forma de consumo de música definitivamente já não era a mesma. A briga continua feia ao nível internacional pelos direitos do autor, mas pouco a pouco se vão reconhecendo os novos paradigmas que estabelecem as relações das pessoas em uma organização “global” e difusa.
Quem consegue aparecer, vai conseguir fazer. Como se colocar diante de tal frustrante ausência de coordenação motora para um pensamento baseado na produção de capital de retorno imediato? Incontáveis páginas espalhadas por toda a Terra dão a conta do incomensurável da possibilidade e da impossibilidade do controle à projeção.
Tornou-se vital à exposição de qualquer atividade que a pessoa tenha sua página na internet, com visual arrojado, com atrativos de promoções a bônus musicais inéditos, todas as espécies de contorcionismos que refletem o que no Brasil acontece: desde o início dos 2000, artistas foram perdendo platéia, os meios de comunicação não imperam na formação de opinião, o risco de realização de um show, em qualquer lugar, é algo descartável. Os grandes shows não se pagam. Os pequenos shows são inaudíveis. Os “independentes” vão marcando seus pequenos passos por uma trilha de trabalho e show e espetáculo do espetáculo: formas menores de fazer acontecer sonhos musicais diferentes das gerações anteriores. Nada muito diferente do que foi o estabelecimento da Bossa Nova ou da MPB – que são inegavelmente patrimônios nacionais (mesmo que tenham uma diversidade de conceitos e estilos, principalmente a MPB que demarca muito mais uma época do que uma “forma de fazer”, uma linguagem).
O anti-projeto, ingovernável, estabeleceu-se.
Hoje, leio com certa tristeza que o Canecão fechou – por questões de dívidas e outras (não fui mais a fundo). Mas a notícia muito mais me deixa perto da realidade pronta do agora: estamos fechando a porta de um passado rico e supremo em seu formato para um anúncio do indizível, por não ter forma definida, mesmo.
Não sei se por descaso, a indústria já deixara de se interessar pelos medalhões que durante tantos anos fizeram um front musical ativamente virtuoso e diverso, até serem engolidos pelas fórmulas de retorno imediato, o que desgasta qualquer coisa. Antes até eram mantidos como forma de dar "prestígio à casa". Nada do que sustentava esse pensamento existe hoje - senão o que vende.
Medalhões arranjaram uma nova casa: a Biscoito Fino. Todos os que um dia reconheci como grandes autores, que formalizaram esta diversidade riquíssima entre bossa nova e MPB e espetáculo musical, estão alocados lá. Não falo sobre outros selos, que existem e têm sua importância vital neste processo de revisão de conceitos a respeito da música e da indústria do entretenimento. No entanto, a Biscoito Fino, devagar como um mineiro, alojou as pérolas e medalhões da música popular brasileira, além de representar grande parte da boa música instrumental produzida – sem com esta afirmativa estar deixando de ver o caso mais saudável de desconcentração de poderes no que vários selos vão se colocando, aversos a rótulos, com artistas e músicos de extrema sensibilidade e talento. A Biscoito Fino tornou-se indústria. Os selos que nascem continuam sua sóbria independência, com o rigor merecido pela música brasileira e por “nós” que sempre nos orgulhamos de tê-la.
O Canecão fecha suas portas para que a realidade seja constatada. O mercado musical e do espetáculo sofre. Vários artistas estão sem trabalho, sem ter onde tocar, sem conseguir levar seus projetos adiante. O passado é exigido agora, sem memória e sem orgulho.
A história é contada de diversas maneiras, com vários outros detalhes. Esta é a minha. Continuo ouvindo todas as músicas de todos os tempos: as que respeito. E que cada um reaprenda a respeitar o seu próprio modo de ver sua história, sua formação e seus ícones musicais; sejam novos, sejam nacionais, sejam exteriores.... Mas que se contaminem pelo grande da música que sobrevive a qualquer desrespeito que tente se impor ao que vem da alma.
Obs: Após a publicação deste textos surgiram críticas ao não aprofundamento das responsabilidades dos diversos componentes que geriram ou que requerem o fechamento e o prédio do Canecão. Não nos posicionaremos a respeito, nem foi intenção desprezar responsabilidades e direitos pois, como foi dito, esta é a minha visão e não estou inteirado documentalmente.
Espero que os que se sentem prejudicados neste processo saibam que têm o meu maior respeito considerando a legitimidade e a complexidade deste problema.





0 comentários:
Postar um comentário