Domingo, Junho 27, 2010

Da necessidade de atualização - pessoa versus instituição

Muitos devem saber do fato ocorrido no entrevero entre Globo (Fátima Bernardes, jornalista) e Seleção Brasileira de Futebol (Dunga, técnico responsável), onde um contrato de exclusividade foi devidamente rasgado, provocando palavrões e outros espetáculos dos espetáculos financiados pelas grandes instituições. Não menos previsível o fato de textos jorrando na internet a respeito e a favor, ou contra, isso ou aquilo, o vídeo em que se faz leitura labial dos palavrões ditos pelo técnico Dunga a profissionais envolvidos no infame acontecimento. Acrescente-se um editorial lido por William Bonner, jornalista editor do Jornal Nacional, colocando todos os contras ao “comportamento” de Dunga. Este é um brevíssimo resumo, por considerar que muitos já estão cansados de saber do ocorrido, de ler os artigos publicados na internet e de outras ações no entorno, que mais me nauseiam.

A matéria toda, repleta de todas as incursões, digressões e ataques de vários tipos, gerou uma discussão de valores, ainda no nível das instituições, o que me parece inadequado. Estas coisas acontecem e levam à necessidade de reflexões mais aprofundadas a respeito, numa observação atenta e centrada para o entendimento de como a vida é feita no contemporâneo. Será somente contemporâneo desde quando? Não por outro motivo, Guy Debord escreveu o polêmico “A sociedade do espetáculo”, há anos, em que propõe a teoria do fato da informação como alimento do fato aumentado e consumido, alimento da conseqüência do fato e o que se pode falar destas repercussões e assim, interminavelmente, informação e dinheiro são gastos para um tal hábito de consumo de “cultura” e atualização. Vai ficando mais claro que, neste fosso econômico da informação, as práticas estão demasiado desalinhadas no tempo, proporcionando que não surjam entendimentos mais claros sobre como a coisa é feita.

Nos anos 90, quando comecei a estudar mais assiduamente teorias de percepção, fiquei imaginando o que seria produzido no contexto do conhecimento humano no novo século que levasse a uma leitura mais apropriada do presente, querendo e duvidando que, no presente, anos 2000, este pudesse ser lido, de forma clara e tempo real. Claro, esta dúvida advinha da clareza que estava em formação em mim, era anunciada por obras de 100 anos ou mais – eu que pensava que a humanidade caminhava! Bom, pelos métodos desta série de assaltos à inteligência, ficamos expostos aos mesmos mecanismos de conquistas de espaço à força, sem a mínima sutileza de articulação.

O interessante nesta discussão é que emerge uma questão essencial, o fundamentalismo, que já deveria estar ultrapassado, pelo menos nas relações pessoais, principalmente nas crenças individuais. Os discursos clichês e os rótulos desgastados, sem aderência, tentam sobreviver, mesmo que se viva e saiba que ocupamos estes espaços de acontecimentos e indução de conhecimento sem condições de reconhecimento de alguma face dos verdadeiros intuitos que se desenvolvem como vírus dentro da cultura, já apropriada do senso do indivíduo, afastando as possibilidades de se ver o quanto cada um tem a ver, mesmo, com este mecanismo todo e o quanto está irredutivelmente distanciado de sua vida, do que esta é formada, quais os vínculos reais, entre outros pontos. O indivíduo que não sabe onde inicia e acaba a sua ação na vida está alienado a condição de defesa do nada.

Não existe "o povo brasileiro", "o povo americano" etc... Isto é coisa de instituição e elas estão frágeis demais pra segurar as falsas premissas em fraturas expostas e os discursos que vão sendo elaborados e expostos no cotidiano, como forma de manter uma unidade social (falsa premissa), quando o intuito forte é fazer resvalar valores na e para a instituição econômica. Os paradigmas atuais não compreendem mais esta maneira caduca. Tanto é um absurdo, por exemplo, que a Espanha tenha sido bombardeada há poucos anos, pois em 1300 e tantos os representantes do país fizeram não sei quê aos "não sei quem". Com o devido respeito: vá ter mágoa e rancor assim lá na casa... !!!!

Que "o futebol brasileiro" seja representado por um Dunga não é muito diferente de qualquer outro que teve em sua época a chance de exercer a sua linguagem, a sua expressão dentro dos preceitos possíveis do corrente vocabulário. Todos eles se zangaram, todos disseram palavrões, todos peitaram, mas nenhum ultrapassou a barreira cruel da informação em tempo real, sem intervenções e bips. Eles foram coniventes com a estrutura do poder, por que achavam que não se poderia afrontar "em nome do que quer que seja". E se a barreira foi furada, está muito mais na fragilidade e imaturidade dos representantes da comunicação do que um ato heróico de Dunga que, ao contrário, à medida que este ato se torna público está desenhado o código das coisas. O espetáculo aqui testa colocar o vilão em evidência – aquele “que diz palavrões e é um grosso” e que representa a equipe brasileira de futebol – que, na verdade, conduz a seleção brasileira, na busca por uma conquista a mais para o futebol brasileiro. Quem está afrontando, enfim? Afinal, não é necessária a agressividade para fazer a bola rolar? Em episódios passados, eles não noticiaram...

Numa comparação tosca, se o BigBrotherBrasil retira os palavrões com um bip, poderia bem respeitar àquele que está representando o "futebol brasileiro". A “Venus Platinada” está ganhando muito dinheiro com isso! O futebol é atividade econômica prioritária, a ponto de os colocarem em disputa nas verbas patrocinadoras, antes somente para as atividades culturais e artísticas, junto ao Estado. A crença que o futebol é o máximo do máximo na cultura brasileira foi uma invenção implantada pelos sistemas de informação em conjunto com a ditadura militar. Hoje não temos mais a ditadura militar, mas a ditadura econômica que se impõe no mais alto grau da tecnologia: a (des)informação. A informação agora nega o valor e requer o controle exclusivo do e no futebol, enquanto este mesmo lhe proporciona muito dinheiro? Tal não é tão estranho quanto vislumbrado pela famosa história (ou estória) da doença do jogador Ronaldinho no final da Copa, fazendo com que a equipe brasileira cedesse ao direito de campeão para um direito “maior” posterior, vinculado à hospedagem da próxima Copa do Mundo. Vão querer se desvincular do poderio de formação de opinião que o futebol traz historicamente? E vão aliar a quê? A informação não sobreviverá no espelho, pouco sobreviverá de criativo para sequer transformar-se em arte, com estas vaidades mal alocadas.

A coisa do espetáculo: Dunga peita a Globo! Viva Dunga! O Futebol Brasileiro afronta a grande da indústria de comunicação! O povo grita: Viva! Como se fosse um GOL ! E como se esse GOL fosse “de placa”, direto na série de problemas estruturais que carregamos e tudo estivesse resolvido, assim como se a Copa vier ao Hexa e, novamente, a vida não vai mudar. Simples palavrões se tornam "gritos de independência ou morte". Qué isso??! Estamos adultos para não perder o prumo. Qual prumo?

Coisas sérias: indivíduos e instituições. A briga é institucional. Pensamos ter acesso, mas somos reles mortais, por mais que uns ou outros, ou todos, tenham um nome firmado em qualquer dimensão da vida, e tentem somar às suas personalidades a representação de grandes instituições. Falou um especialista em política internacional que os EUA têm a força por conta do "reforço às instituições". Sabemos todos das fragilidades óbvias desta instituição - e de qualquer uma. Não nos enganemos.

Como "dirigente institucional da equipe futebolística", Dunga deu um não à pressão de mais uma instituição que se sente soberba em seu poderio sobre uma atividade desportista, que gera interesse público e dinheiro, muito dinheiro, em decorrência. A Globo, via Fátima (ou vice-versa), sentiu-se aviltada por não poder cumprir o mandato, a exclusividade. O que era institucional, tornou-se articuladamente individual - ELA sentiu-se aviltada!, voltou para o Brasil com fins de ampliar o fato; e a situação foi revertida de uma forma torpe e grosseira para qualquer faixa intelectiva, para qualquer ser humano, de forma que o indivíduo Dunga, que “ocasionalmente” é técnico, passe a ser um sujeito grosso, mal-educado etc etc. A instituição Globo pune o indivíduo Dunga e não o técnico que se propõe a não aceitar pressões. A Globo aceita pressões, senão aquelas completamente negociadas e que exigem uma articulação? Os indivíduos devem aceitar as pressões da Globo ou de quaisquer instituições que lhe negam o direito soberbo da individualidade, subjetividade e, num passe de mágica, a palavra mágica: cidadania? A Globo assume o nome Fátima?

Todo mundo quer ser presidente!!!? Vai tentar articular algo nesta miséria posta com nome INSTITUIÇÃO?

O fato é lamentável desde a exclusividade, passando pelos rasgos e palavrões, até um discurso hipertosco do marido da nobre aviltada global. O sapo era pra ser engolido, sem a menor sombra de dúvida, neste jogo de inteligência estratégica da informação e comunicação.

Viva a ninguém! Que se aprenda o que está no foco e se realinhe. Acredito que isto seja imperativo e que as articulações em torno das atividades se conectem com mais maturidade e as pessoas venham, enfim, a ampliar a percepção de mundo e a ver, ter e fazer por aspectos mais positivos em seu cotidiano, tomando as rédeas de suas vidas, do que continuar submergindo nesta posição reiteradamente caduca dos gestores de instituições e suas idéias. (Será que promovem treinamentos e reciclagens por lá?)

A Seleção Brasileira de Futebol merece patrocínio e não exclusividade. “Representando o país” e sendo mola-mestra da esperança do brasileiro, bem como sendo motriz no sistema econômico, muito se faz e diz em nome disso e pouco se respeita. O futebol é um motivador para os jovens, como fator de esperança real, um possível articulador das tensões de agressividade, além de, como a música, ser reconhecida internacionalmente como uma dos recursos humanos mais legítimos no país. No entanto, não é isso que se põe a favor ou contra ninguém.

Lamenta-se o fato pelo cruel da realidade revelada, cuja voz ainda vai reverberar pelos silenciosos corredores do “invisível”...

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