Sábado, Agosto 14, 2010

Dos absolutos, dos censores

Não creiam: o Grande Irmão, anunciado por Orwell, está presente – não é somente literatura. Não há ficcção na vontade de saber, de dizer, de construir conforme interesses nada excusos na grande estrada amoral, cuja ética e moral atendem sempre aos interesses próprios, em todas as dimensões.
A “verdade absoluta” foi expulsa do paraíso há tempos. E ela nos habita em tentativas de convicções formadas pela tradição e ideais de raiz. Somos seres soltos em espaços aleatórios e nestes temos que fazer algo a respeito do que é corrente. A corrência das coisas, neste mundo que a mim parece ter virado de cabeça para baixo, evita tocar nestas minúcias detalhistas e puristas em que o que é será sempre uma aproximação, articulada por palavras censuradas, não condizentes com a totalidade de sua origem, mas com um propósito que tentam legitimar como válido e possível.

Todos temos passado e, feliz ou infelizmente, temos concretizado, de “lá”, grande parte do que sustenta nossas práticas ou vamos nos ressentindo vorazmente pelas quebras íntimas que “somos obrigados a percorrer”. Não fosse o passado e o que pudemos aprender pela experiência, pelo contato próximo às situações que nos colocaram frente-a-frente com o que desejamos fazer, mesmo que não querendo (simples conveniência), tudo se conforma num ser presente que tem que se reformar para agir na agilidade das apreensões cotidianas, em que fazer é competir, ultrapassar limites próprios e de outros, negar princípios; e são poucos os que conseguem permanecer fiéis a seus objetivos primeiros e se sentirem dignos ao olhar no espelho dos olhos alheios que o acompanham, ou ao espelho em que sua intimidade não o nega até a hora do travesseiro confidente.

Assim, diante da pletória de informação e do disse-me-disse, os seres são vasculhados em suas densidades, testados até quase a alma – não há como, atingindo a alma, deixar-se tão vulnerável e conveniente às situações. No entanto, as coisas todas, as relações que vão em rede multiplicadas, observadas minuciosamente, fazem com que as pessoas vão superficializando a vida no que há de mais vil do que um ser é capaz de sua vida. Mas está dentro da cultura, a sociedade do espetáculo, sempre em franca evolução, onde gerar interesse é criar negativas, posicionamentos flagrantemente reiterados de dúbio posicionamento, e assim o mar da vida tornar-se mais revolto. Parece mais excitante!

Muitos de nós, “seres comuns” – sem o poder e conhecimento para intervir em diversos assuntos, pela complexidade ou pela falta de acesso – anunciamos ao mundo nossas visões que são tão torpes quanto mais torpes são os objetos que nós tentamos tocar. Esse lado torpe dos seres comuns nada são do que o grande torpe de todo o discurso do Grande Irmão, tão disperso e diverso.

Neste tempo de eleições e tamanhas dificuldades na gestão de uma cultura tão bipolar, saímos pelo mundo repleto de opiniões, muitas delas advindas deste procedimento de propagação das idéias não embasadas, nada consistentes, e que chamam posicionamentos do passado ou forças do presente contínuo para alterar a cabeça daqueles “nós” que não sabemos mais em quê ou quem acreditar.

Somente hoje, pela manhã, recebi várias “mensagens de grupo” falando  da “gangrena” postada no centro do meio televisivo-jornalístico mais visto do Brasil – um grande estimulador na conformação de opinião e definitivamente formador de opinião – este confirmando a incompetência de tal jornalismo em lidar com posicionamentos um pouco mais complexos, perdendo a sobriedade e derrocando em seu poderio de estar frente a um dos mecanismos de informação popular de maior responsabilidade, já que de maior audiência, flamejando um infantilismo lamentável na conformação da própria profissão. Porém, já é visto o quanto as instituições estão fragilizadas diante da força da velocidade em que a informação transpassa continentes deixando suas marcas.  E, elas não sabem lidar com isso. Imagina?

Não conto a diversidade de emails denegrindo a imagem da presidenciável do PT, em todos os aspectos, e alguns, em especial, de personalidades públicas que retém credibilidade pública, anunciando o mesmo discurso que Regina Duarte proferiu ao dizer que “tem medo do Lula”. Agora, é Marília Gabriela que assume o posto do “tenho medo de”. Pergunto-me veementemente se estas pessoas não se lembram dos acontecimentos nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor. Óbvio, nestes governos não houve tempo para ter medo de nada. Mas, sendo pessoas a quem sempre dirigi respeito, pergunto-me o mais sinceramente: do que é feito esse tal reino de informações? Quais as conveniências que tais personas assumem publicamente em formato tão “Chapeuzinho Vermelho”?

Concretizando a falência da candidatura do presidenciável José Serra, outros tantos vão colocando o manancial de coisas sob as quais esta alternativa está sucumbindo. Assim, tentam empurrar as sobras dos desacreditados nesta candidatura para a candidata do PV, Marina, que chegou a ter alguma simpatia, inclusive, mas por seus posicionametos religiosos e nada contemporâneos – diante de realidades necessárias a este mundo presente – pintou o verde original em cores de matizes nada estéticas e sem foco, sem amplitude além da visão soberana de sua religiosidade.

O Grande Irmão não tem pena, não é condescente, não faz parcerias, não avalia situações, não tem a menor empatia a respeito de questões sócio-econômicos-culturais e educacionais; na verdade, o Grande Irmão só quer imperar. E este é nosso grande desejo: proferir opiniões, divulgar desconstruções, descentralizar atenções e se invibializar projetos de vida.

Neste momento em que constato coisas para minha reflexão, coloco ao mundo, pequeno ou grande, que venha a ler o que digo, propondo posicionamentos mais esclarecidos, menos espetaculares, pois se trata de um grande território (nossas vidas) e algo me vem com uma força destemida e necessária: Acabemos com este Carnaval!

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